Caulus Ponte Negra


29/11/2007


 Revirando arquivos, encontrei esse texto escrito no carnaval de 2005

 

Pequenos gestos

  

Do outro lado da rua e dentro do meu coração, mora um menino que adora música clássica e detesta bombinhas de são João.

O menino não tem nome. Chamam-no de um certo “fulano de tal” que em noites de dias quentes e lua clara, fica pelas esquinas e praças, assobiando para as prostitutas, dirigindo olhares ressabiados para as ninfetas de bom tamanho, atirando elogios às balzaquianas de saias justas e mandando beijos para os travestidos de machões da sociedade decadente.

Mas quando o inverno se aproxima, em suas noites de dias frios e luar às escondidas, o menino se envolve num velho cobertor, herança do avô, e fica mexendo os joelhos, pra disfarçar o que se passa, enquanto sonha com Greta Garbo.

O menino, como eu disse, não tem nome. Identifiquei-me com ele devido ao paralelo de nossos destinos. Ambos somos órfãos e, ainda em comum, levamos na bagagem restos do passado e muito de sonhos e esperanças no futuro.

Ontem, vestiu a fantasia e foi pra avenida. Chegou na avenida e foi pro samba. Sambou, sambou, sambou... Sambou o quanto quis.

Não sei a idade exata desse bom menino. Presume-se uma boa idade dentro do tempo. As linhas geográficas registradas em seu rosto apontam para mais de setenta, talvez setenta e cinco. E foi ele que, no vigor dessa juventude realizada, disse-me em certa ocasião: “É preciso apoderar-se da rosa, embeber-se de seu perfume, para saber diferenciá-la das outras flores”.

Passamos indiferentes pela vida e, muitas vezes, julgamo-nos incapazes de grandes feitos, quando a felicidade, a verdadeira felicidade, não consiste em sermos os maestros da intelectualidade ou do poder aquisitivo, mas em sabermos nos doar ás pequenas coisas, pois são as pequenas coisas, os pequenos gestos, que edificam a grandiosidade da existência, da existência de cada um.

 

Caulus Ponte Negra

 

 

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Escrito por caulus ponte negra às 20h20
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27/11/2007


Para a minha mais nova blogueira linkada www.bruxinha3.zip.net , mais quatro



POETRIX




Iniciação



Apenas amor


E desejos na cabeça:


Delírios de ninfeta




Orgasmo



Na cama, nossos corpos


Unidos, entrelaçados


Deuses apaixonados




Zênite



Provou do fruto


E se fez


Absoluto




Desavença



Foda-se! Disse-lhe ela


Foda-se você! Ele disse


Ninguém desdisse: dormiram



Caulus Ponte Negra



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Republicamos selo da campanha pelo fim da violência contra as mulheres.



Do blog: www.vandersonfreizer.zip.net

Escrito por caulus ponte negra às 15h33
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26/11/2007


Coisas que só o tempo registra

 

          Tempo vai passando e as coisas vão se repetindo. Um trem vai deixando de ser aquele velho trem e um outro trem vem surgindo e pedindo passagem para atravessar o pantanal, viver as aventuras do novo, tornar-se velho e... idem àquilo que o leitor já leu para que eu economize espaço e não torne esse nosso papo tão chato, de ter que ficar explicando essa metamorfose natural que, com o tempo, vai rabiscando as nossas faces.

          Passaporte para a eternidade. Costumam dizer os soldados da fé, enquanto, na realidade, ao adquirirmos e ver acentuando as tais linhas geográficas, fotografias da geografia cronológica, também caímos na realidade. Percebemos que nada, e ninguém, é eterno, que nenhum de nós ficaremos para semente, mas poderemos, em vida, ser e plantar diversas sementes que serão germinadas e os frutos serão colhidos por outros que virão depois.

          E nós? Nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais, mergulhados na canção do Belchior.

          Dizem que com o tempo o gosto passa. Mentira. Com o tempo simplesmente mudamos de gosto, de preferência, descobrimos que jabuticaba não tem asas e que durante o tempo todo comemos besouros. Essa é a realidade. Os conceitos vão sendo adormecidos e nós, que durante uma quase eternidade, vivemos cheios de sonhos e esperanças, passamos a ser agentes da estagnação, depois de nos darmos conta de que a vida é uma estação relâmpago.

          Amigo meu, jornalista lá de Sampa, nesses últimos dias, vive me ligando sem motivo algum que justifique o ato de ligar. Estou ligando só pra saber como você está (coincidentemente tem uma canção que diz a mesma coisa). Não fosse aquela inconfundível voz, aquela voz do publicitário e jornalista, como eu, que comigo dividiu muito pão com manteiga na chapa em velhos tempos de república, eu até diria que meu grande amigo perdera a originalidade. Aquela originalidade que todos nós da República de Santo Mé, costumávamos, ou melhor, sempre mantivemos. Cruzes! Estou ficando velho e cada vez mais prolixo.

 

Caulus Ponte Negra

 

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Escrito por caulus ponte negra às 13h19
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