Revirando arquivos, encontrei esse texto escrito no carnaval de 2005
Pequenos gestos
Do outro lado da rua e dentro do meu coração, mora um menino que adora música clássica e detesta bombinhas de são João.
O menino não tem nome. Chamam-no de um certo “fulano de tal” que em noites de dias quentes e lua clara, fica pelas esquinas e praças, assobiando para as prostitutas, dirigindo olhares ressabiados para as ninfetas de bom tamanho, atirando elogios às balzaquianas de saias justas e mandando beijos para os travestidos de machões da sociedade decadente.
Mas quando o inverno se aproxima, em suas noites de dias frios e luar às escondidas, o menino se envolve num velho cobertor, herança do avô, e fica mexendo os joelhos, pra disfarçar o que se passa, enquanto sonha com Greta Garbo.
O menino, como eu disse, não tem nome. Identifiquei-me com ele devido ao paralelo de nossos destinos. Ambos somos órfãos e, ainda em comum, levamos na bagagem restos do passado e muito de sonhos e esperanças no futuro.
Ontem, vestiu a fantasia e foi pra avenida. Chegou na avenida e foi pro samba. Sambou, sambou, sambou... Sambou o quanto quis.
Não sei a idade exata desse bom menino. Presume-se uma boa idade dentro do tempo. As linhas geográficas registradas em seu rosto apontam para mais de setenta, talvez setenta e cinco. E foi ele que, no vigor dessa juventude realizada, disse-me em certa ocasião: “É preciso apoderar-se da rosa, embeber-se de seu perfume, para saber diferenciá-la das outras flores”.
Passamos indiferentes pela vida e, muitas vezes, julgamo-nos incapazes de grandes feitos, quando a felicidade, a verdadeira felicidade, não consiste em sermos os maestros da intelectualidade ou do poder aquisitivo, mas em sabermos nos doar ás pequenas coisas, pois são as pequenas coisas, os pequenos gestos, que edificam a grandiosidade da existência, da existência de cada um.
Caulus Ponte Negra
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