
Salvo por Clarice

Mexi em ninho de passarinho quando criança. Só pode. Minhas estratégias não têm dado lá muito certo. Um Deus a meu favor e cem demos contra mim. Estou balançando numa gangorra de parafusos soltos. Lá embaixo um bando de otários, ignotos e incompetentes (energúmenos mentecaptos!) subindo ao podium do triunfo. Ao sucesso: cognome caixa dois. E eu? Cá de cima, com toda essa minha sabedoria nata, apoteótica, gloriosa (ao menos deveria!), vou descendo – sem pára-quedas – rumo ao abismo, ao caos do esquecimento. Titanic me aguarde! Cegos narrarão a história. Escreverão, em braile, tudo o que não viram.
Antes do naufrágio, vou parar e dar-me a leitura. Qualquer coisa empoeirada ali na estante. Oba! Faz tempo que não nos encontramos. Eu e Clarice. Clarice Lispector. Ou seria Linspector? O que importa? Clarice era jornalista e, para mim, a maior escritora brasileira, embora tenha nascido em Tchetchelnik, na Ucrânia. Foi no Brasil que ela se fez. No Brasil que ela tanto amou e adotou como a sua pátria. Clarice morreu em dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.
“Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti
Grande Clarice. Se viva, estaria, coincidentemente, nessa data em que escrevo, 10 de dezembro, completando 87 anos. Retorno-me ao micro. Entregar-me por quê? Em pouco tempo passa-se o tempo. Em instantes, assim como Clarice, estaremos todos mortos. Enquanto em mim existir a vida, quero vivê-la intensamente, mesmo que por apenas cento e quarenta e sete anos, com ou sem conta bancária.
Fugiram-se os demônios. Apertaram-se os parafusos da gangorra. Agora, e daqui para frente, estarei sempre subindo. A subida é minha vocação e meu destino. Ainda mais tendo Deus ao meu lado e em meu coração. E ele tem sempre dado-me a coragem pra seguir nesta jornada. Este bom Deus de Clarice e de todos os cristãos do mundo.
Caulus Ponte Negra


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